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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vai Passar


Vai Passar
Chico Buarque

Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval
Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral... vai passar

Samba e Amor



Samba e Amor
Chico Buarque


Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente 'inda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna, a nossa cama reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão


Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação


Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade. Que alarde!
Será que é tão difícil amanhecer?
Não sei se preguiçoso ou se covarde
Debaixo do meu cobertor de lã


Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

"A felicidade por que meu coração anseia... é um estado simples e permanente."

domingo, 13 de janeiro de 2008




Chico Buarque - Beatriz
Olha 
Será que ela é moça 
Será que ela é triste 
Será que é o contrário 
Será que é pintura 
O rosto da atriz 
Se ela dança no sétimo céu 
Se ela acredita que é outro país 
E se ela só decora o seu papel 
E se eu pudesse entrar na sua vida 
Olha 
Será que ela é louça  
Será que é de éter 
Será que é loucura 
Será que é cenário 
A casa da atriz 
Se ela mora num arranha-céu 
E se as paredes são feitas de giz 
E se ela chora num quarto de hotel 
E se eu pudesse entrar na sua vida 
Sim, me leva pra sempre, Beatriz 
Me ensina a não andar com os pés no chão 
Para sempre é sempre por um triz 
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão 
Diz se é perigoso a gente ser feliz 
Olha 
Será que é uma estrela 
Será que é mentira 
Será que é comédia 
Será que é divina 
A vida da atriz 
Se ela um dia despencar do céu 
E se os pagantes exigirem bis 
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Muso! Muso! Muso!


Nunca tinha levado Chico Buarque muito à sério. Pra mim era coisa de pseudo-cult querendo pagar de apreciador da música nacional. Já tinha escutado uma meia dúzia das mais tocadas dela e me contentava com isso. Semestre passado, por falta de matéria na Letras eu decidí cursar "Algumas Cidades na Literatura de Chico Buarque". Lá fui eu, completamente ignorante em matéria das obras dele pra sala de aula. O primeiro choque foi a professora: bem humorada, simples, tranquila. Depois ela fez a gente ouvir com atenção, prestar atenção nas mensagens, nas letras, nos símbolos. Pronto, foi o suficiente pra eu me apaixonar. Meio tarde é verdade. Se bem que nunca é tarde pra gente descobrir novas inspirações, é? Segue uma das letras que eu considero mais fantástica dentro tá tão aclamada obra do Chico.

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado


Esta letra foi retirada do site www.letrasdemusicas.com.br

sábado, 4 de agosto de 2007

Porque eu não vivo sem samba!

Tem mais samba Chico Buarque
1964 -Para o musical Balanço de Orfeu de Luiz Vergueiro


Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer
Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver