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quinta-feira, 28 de julho de 2016

"Não falemos mais. As coisas que se amam, os sentimentos que se afagam guardam-se com a chave d'aquilo a que chamamos «pudor» no cofre do coração. A eloquência profana-os. A arte, revelando-os, torna-os pequenos e vis. O próprio olhar não os deve revelar.
Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente n'outra mão. É aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando os envolve como uma nuvem. (...)
Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele."
Fernando Pessoa, 'Inéditos'

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Fernando Pessoa - O livro do desassossego

Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de
parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me
pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles
nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta
de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.
Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido,
sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca
coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de
milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao
destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos
meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo
maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma
semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência... Vejome
no quarto andar alto da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho, sobre
o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender
estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!,
a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui,
eu, assim!...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Fernando Pessoa em Ricardo Reis

Gosto das Odes de Ricardo Reis, sempre com suas musas e seu paganismo. Não dava muito crédito à Fernando Pessoa até fazer uma matéria sobre Literatura Portuguesa. Desde então, apaixonei-me por ele e outros autores lusitanos. Fica ai, a minha ode preferida de Ricardo Reis, para Lídia, uma musa recorrente num poema que renega qualquer paixão ou sentimentos muito fortes pois "que gozemos, quer não gozemos passamos como o rio, mais vale passar silenciosamente". Recomendo também a leitura de Saramago em "O ano da morte de Ricardo Reis" em que ele narra o que poderia ter acontecido ao heterônimo de Pessoa.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quise'ssemos, trocar beijos e abrac,os e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o o'bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.